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FASCISMO E RELIGIÃO NO BRASIL


Vivemos um tempo sombrio. A onda de direitização que avançou sobre o mundo, impulsionada pelo “terremoto” da crise econômica de 2007-8 nos EUA, não teve contraponto à esquerda. As organizações das classes trabalhadoras agrupadas em torno da social-democracia e os velhos partidos comunistas foram incapazes de reagir ao nacionalismo e xenofobia que levou partidos de direita ao poder na Dinamarca e Bélgica e a extrema direita a ter uma forte representação na Áustria, França e Grécia. O Brexit e a vitória de Trump na eleição presidencial americana inserem-se na mesma tendência.

No caso brasileiro, o arremedo de social-democracia estruturado em torno do PT já estava sem rumo desde as manifestações de rua em junho de 2013, agravando-se com a tentativa de Dilma Roussef de garantir a governabilidade ao “cumprir as ordens do capital financeiro” após a reeleição em 2014. O partido não reagiu ao impeachment entre 2015 e 2016, recusou a proposta da convocação de eleições gerais feita pela presidente e simplesmente capitulou ao golpe civil de Temer, na temerária aposta de um movimento pendular na política eleitoral, em virtude das investidas da Lava-Jato e das contradições sociais das quais o golpismo é expressão e será aparentemente vítima.

Esta visão simplista da política defendida pelas lideranças e porta-vozes intelectuais do partido e seus simpatizantes deixa de perceber como a onda de direitização está socialmente enraizada e que seus próprios esforços de sobreviver politicamente mediante alianças com o PMDB nas eleições municipais de 2016 igualmente os amarram a estes limites. Mais grave ainda: a defesa abstrata da democracia e a ignorância das experiências da luta de classes impedem a tomada de consciência de que a extrema-direita pode, senão conquistar o poder pela via eleitoral, manter a polarização política nesse sentido.

Não pretendemos fazer aqui uma análise dos movimentos de extrema-direita no Brasil, embora saibamos da urgência deste estudo. Pretendemos algo mais modesto: situar as manifestações de rua do ponto de vista das organizações envolvidas, identificar suas tendências ideológicas, indagar acerca de uma tendência fascistizante em seu meio e avaliar, com base na contribuição de Theodor Adorno, a relevância das religiões evangélicas nesse processo.
1.

Antes de mais nada é importante apresentar a compreensão mais difundida acerca do fascismo. Veja-se o artigo O fascismo no Brasil hoje, publicado no Brasil De Fato de 02 de agosto de 2016, de Pedro Silva, professor e militante da Consulta Popular.

O autor adota o senso comum alimentado por análises idealistas como as de Florestan Fernandes, a saber, a de que nas sociedades contemporâneas pode existir fascistização sem fascismo, isto é, sem movimento fascista. Tal interpretação permite generalizações como se percebe no parágrafo abaixo transcrito:

A disseminação da intolerância, do ódio, do elitismo e da misoginia que observamos hoje, seja nos atos “Fora Dilma” e nos panelaços da classe média, nas medidas tomadas pelo governo golpista e no conservadorismo do congresso nacional, na ascensão de iniciativas como a Escola Sem Partido e o Movimento Brasil Livre (MBL), expressam a vitalidade e o perigo da fascistização da sociedade brasileira que não podem ser menosprezados.

A perspectiva generalizante da “fascistização da sociedade” é igualmente adotada por Rosa Maria Godoy Silveira que lança mão do pensamento liberal-democrata de Norberto Bobbio e outros para definir esse processo.

Uma crítica a estes ponto de vistas encontra-se em ensaio de Demian Mello, no qual o autor mostra ser o uso do termo um recurso retórico bastante comum contra o “autoritarismo”. A maior contribuição do ensaio do historiador está em apontar as raízes mais profundas da visão acerca do fascismo na tradição estalinista da Internacional Comunista, principalmente a partir do VII Congresso e a incorporação desta visão na cultura das esquerdas.

A análise de Demian Mello fundamenta-se em Laclau (Política e Ideologia na Teoria Marxista. Capitalismo, Fascismo e Populismo, 1977). Parece-nos, contudo, mais apropriado lançar mão do estudo de August Thalheimer para caracterizar a posição do VII Congresso, realizado no ano de 1935 em Moscou. De acordo com aquela liderança da Oposição Comunista alemã, em escrito datado de 1936 [1]

O fascismo aparece dentro da política de frente popular não como uma forma de domínio da burguesia como classe, mas como “ditadura dos elementos mais imperialistas, mais chauvinistas do capital financeiro” [...], como obra das “duzentas famílias dos grandes capitalistas mais ricos (como na França), contra quem é possível colocar, numa frente de luta unificada, o “povo”, isto é: operários, pequeno-burgueses e também a massa dos burgueses que não pertencem aos elementos mais imperialistas e mais chauvinistas do capital... (pág. 76)

E mais adiante:

A afirmação de que o proletariado atualmente possua somente a escolha entre a ditadura fascista e a democracia burguesa, leva praticamente ao fato de que o Partido Comunista, onde ainda existe a democracia burguesa, como na França, se limite agora à luta por sua preservação e que, onde o fascismo já venceu, como na Alemanha e na Itália, venha a lutar pela restauração da democracia burguesa.

É uma ironia da história que a chamada nova esquerda tenha adotado o pressuposto estalinista sobre o fascismo. Como observa Demian Mello, referenciando-se em Frederic Jameson,

Nos anos 1960 a geração estudantil revolucionária havia adotado o uso generalizado do termo “fascista” para se referir a toda sorte de regimes políticos existentes. Isso foi meio um espírito daquela época.

A partir da década de 1970, o uso do termo sempre tornou-se comum entre os jovens universitários para criticar o conservadorismo, o racismo, o machismo, etc. mas, principalmente, atitudes autoritárias, inclusive na atuação das esquerdas, reverberando as posições de Foucault, Deleuze e Guattari.

A incorporação da análise do fascismo nas lutas de massa no Brasil após o fim da ditadura militar é, contudo, um fenômeno histórico recente.

Recordemos: nas manifestações populares de junho de 2013, ao lado dos protestos do Movimento Passe Livre, surgiram outros grupos que passaram a atacar o “petismo” numa ótica anti-comunista, pondo em questão, de modo difuso, programas redistributivos como o Bolsa Família e cotas nas universidades e a legislação sobre o trabalho doméstico. Em contrapartida, os defensores dessas medidas e, por extensão, do governo de coalizão“ PT-PMDB, passaram a criticar aquelas pessoas do ponto de vista social, denominando-os de coxinhas”. Na gíria paulistana o termo designa pessoas de “classe média alta”, defensoras de valores conservadores e de idéias políticas direitistas.

Com o desfecho do processo eleitoral em 2014 e o início da operação Lava-Jato no ano seguinte, os “coxinhas”, apresentando-se como defensores da nação (daí o uso de camisas e carregar bandeiras com o dístico nacional), encontraram espaços organizativos como o Movimento Brasil Livre e passaram a denominar os apoiadores da vitória eleitoral de Dilma Roussef governo de “petralhas”, uma combinação da palavra “petista” com “irmãos metralha”, ou seja, bando de ladrões.

A deposição de Dilma e o golpe civil de Temer & Cia permitiu o deslocamento da linguagem com o surgimento da crítica ao fascismo. Ou seja, a generalização do uso do termo “fascismo”, “fascista” e “fascistização” foi um passo adiante em relação à linguagem utilizada na luta ideológica iniciada em 2013 nas ruas e desdobrada nas chamadas redes sociais.

Será correto, porém, denominar esses movimentos direitistas de fascistas? É o que pretendemos analisar, em breve, na próxima parte do presente texto e, com isto, retomar a reflexão sobre o tema.

Notas

[1] August Thalheimer. Marx, Engels, Lênin e a Frente Popular (1936). Incluído na coletânea “Sobre o fascismo”, publicação do Centro de Estudos Victor Meyer, 2010, disponível para download em
http://centrovictormeyer.org.br/publicacoes/ 
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Enviado por Encontraponto em 22/01/2017
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