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O MERCADO, O PROCESSO ELEITORAL E OS DESAFIOS DO BRASIL EM 2015

A campanha midiática conduziu o processo eleitoral em 2014 escamoteando o debate sobre os desafios que o novo governo, eleito em outubro vindouro, precisará enfrentar. Os três candidatos à Presidência da República com chances de vencer e, igualmente, as bancadas do Senado Federal que irão recompor o assim chamado “presidencialismo de coalizão”, silenciaram propositalmente sobre esse futuro.   Raras e pouco divulgadas tem sido as análises com a advertência de que o  futuro pós-eleitoral implicará uma ofensiva do capital sobre o trabalho e conclamando os trabalhadores a se organizar independentemente das eleições.

Contudo há um ambiente no qual esse futuro é abertamente discutido, devido aos interesses de classe envolvidos.

Recebi da Internews, uma agência de comunicação empresarial online, um convite para o seminário “O que esperar de 2015” que vai acontecer dois dias após as eleições de outubro de 2014. [1] O Seminário debaterá a magnitude e o processo do “ajuste econômico que será necessário para restabelecer as condições de crescimento econômico sustentável. Analisará as escolhas de medidas, graduais ou abruptas, que poderão ser adotadas”.

A proposta expressa o ponto de vista da burguesia e está voltada apenas para ela:


“Participe deste importante evento para melhor dimensionar os desafios que estão diante da sua empresa em 2015” – é o convite, abaixo do qual constam as questões propostas a Ilan Goldfajn (economista-chefe do Banco Itaú-Unibanco), Raul Velloso (Consultor econômico especializado em Contas Públicas Brasileiras), Bernard Appy (Sócio da LCA Consultores. Ex-secretário Executivo do Ministério da Fazenda, onde também exerceu o cargo de Secretário de Reformas Econômico-Fiscais (2003-2009) e Alexandre Rands (Presidente Datamétrica Consultoria).

Eis as questões:

O ajuste econômico será gradual ou abrupto?
Quais são as chances da inflação convergir para o centro da meta em 2015?
O que esperar do crescimento econômico?
O próximo governo conseguirá no ano que vem restabelecer a confiança na economia?

Não se discute se haverá ou não ajuste, mas o método de sua implementação.  Os argumentos sobre o caráter imperioso do ajuste são bastante claros:

“Os fundamentos macroeconômicos estão de tal ordem comprometidos que é inevitável um forte ajuste a partir de janeiro do ano que vem. Os preços básicos, como os dos combustíveis, energia elétrica e câmbio, estão represados, enquanto que a inflação ameaça fugir ao controle. As contas públicas registraram déficit fiscal nos últimos meses. A economia encontra-se em recessão técnica, como só ocorrido em 2003 e 2009.”

Domingos Cavallo, ministro da Economia do governo Carlos Menem entre 1991 e 1996, talvez tenha lido Marx quando afirmou: “O povo vota a cada quatro anos, o mercado todo dia.” É a frase que nos cabe aqui também, do outro lado do Rio da Prata.

[1] Quando recebi a mensagem, perguntei-me como a Internews identificou meu e-mail institucional, mas depois de lembrar que vários endereços e sites os mais diversos invadem sistematicamente a minha conta, penso que devo deixar de lado esta preocupação. Pelo menos nesse caso fiquei  sabendo o que andam pensando os ideólogos do capital. 
 
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Enviado por Encontraponto em 03/10/2014
Alterado em 03/10/2014
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