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POR QUEM OS SINOS DOBRAM EM HIROSCHIMA
 
Quando acordei hoje, minha companheira cantava a Rosa de Hiroshima, poema de Vinícius de Moraes transformado em música por ele e Gerson Conrad, na gravação de Secos & Molhados. Perguntei o motivo dessa cantiga, assim tão cedo: falou-me da mensagem que anualmente Armando, nosso amigo comum, envia para lembrar a destruição daquela cidade pelos Estados Unidos da América no dia 6 de agosto de 1945. Sim, como eu podia ter esquecido? A mensagem era um eco dos sinos que dobram repetidamente, desde então, em Hiroshima, para relembrar o massacre.

Não basta ver e reagir diante das imagens da "rosa radioativa" detonada naquela cidade e, logo depois, em Nagasaki; tampouco é suficiente compartilhar o sentimento antimilitarista que acompanha o som desses sinos.  

É fundamental entender o massacre (e outros nomes que lhe devem ser atribuídos, em nome do futuro da humanidade) como o evento mundial de nascimento da potência imperial exclusiva no/do planeta, os Estados Unidos da América (EUA). Não há antimilitarismo na contemporaneidade sem anti-imperialismo; e se o imperialismo é uma fase avançada do capitalismo, sob o comando hoje unipolar dos EUA esse sistema tomou uma forma científico-técnica a exigir estudo mais aprofundado. (Mário Pedrosa tratou desse aspecto em A Opção imperialista, em 1966 e também Milton Santos, ao longo de uma obra que conclui em Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal, em 2000.)  

Uma análise dos bombardeiros de Hiroshima em 6 de agosto de 1945 e de Nagasaki, três dias depois, constitui o ponto de partida para entender e melhor enfrentar essa característica do violento e arrogante imperialismo americano ainda vigente. A destruição de Hiroshima foi o primeiro passo da escalada militarista desenvolvida nas décadas seguintes, da Guerra do Vietnã ao uso de “drones” no Oriente Médio nos dias de hoje.

Desdobramento do Projeto Manhattan por meio do qual os EUA obtiveram a supremacia mundial do poder atômico, o ataque ao Japão constitui o mais terrível experimento de destruição em massa que a humanidade já conheceu após do Genocídio contra os judeus, as populações eslavas e minorias, como a dos ciganos, no Leste europeu e na União Soviética. O planejamento do bombardeio das cidades japonesas pelos EUA foi cuidadoso e está documentado, acessível ao público interessado.

É importante lembrar que o bombardeamento em massa das cidades japonesas e de Tóquio, até março de 1945, com a morte de centenas de milhares de pessoas, principalmente civis, mediante uso de bombas incendiárias, precedeu o uso da arma letal contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki. No dia 27 de julho de 1945, o presidente dos EUA, Harry Truman, fez chegar ao conhecimento do governo e da população japonesa os termos da Declaração de Potsdam, assinada por ele, Churchill e Chiang Kai-shek no dia anterior, na qual se estabeleceram os termos da rendição, sob o pressuposto de uma guerra total – que, tal como para os nazistas, não distinguia alvos militares de civis. O objetivo exclusivamente militar tinha sido deliberadamente afastado por um “Conselho de Alvos” (Target Commitee), instância de planejamento dos ataques. 

A essa altura, a destruição era uma decisão tomada. Quatro cidades faziam parte dos “alvos”, a saber: Hiroshima, Kokura, Niigata e Nagasaki. As cidades efetivamente atacadas faziam parte das regiões industrialmente mais desenvolvidas do Japão. O potencial da destruição e os efeitos psicológicos tiveram importância crucial, pois se tratava de impor a rendição total, imediata e incondicional. Mas igualmente estavam de acordo “que o uso inicial da arma deveria ser suficientemente espetacular e importante por forma a ser reconhecido internacionalmente.” Bombardeamentos de Hiroschima e Nagassaki>

Aliás, faça-se aqui um parênteses: o reconhecimento internacional tinha por alvo político-militar a expansão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) 
que, a partir de 8 de agosto de 1945, em apenas três semanas, havia derrotado militarmente os japoneses na Manchuria (norte da China ocupada) e a Coréia, quebrando a espinha dorsal do exército de ocupação nipônico estimado em 1 milhão de soldados. Na prática, a posse exclusiva da arma atômica serviu para chantagear os russos no imediato pós-guerra com a ameaça de ataques nucleares, chantagem imortalizada no filme Dr Strangelove (Doutor Fantástico) de Stanley Kubrick.

Uma ameaça sustentada na execução calculada de um ataque que se tornou conhecido: a bomba de gravidade com 60 quilos de urânio-235 lançada sobre o centro da cidade de Hiroshima foi preparada para detonar a 600 metros do solo pois era indispensável aumentar o poder destrutivo e, ao mesmo tempo avaliar o verdadeiro experimento científico praticado em nome da guerra total. Tanto é que a destruição foi executada por um comboio de apenas três aviões, um com a bomba (Enola Gay), outro (The Great Artist) com a missão de vigiar a missão e o último (Necessary Evil) encarregado de fotografar e filmar a explosão.

Hiroshima, lemos na Wipedia,
“...era, com efeito, um centro de comunicações, um ponto de armazenamento, e uma zona de reunião para tropas. Era uma das cidades japonesas deixadas deliberadamente intocadas pelos bombardeamentos estado-unidenses, proporcionando um ambiente perfeito para medir o dano causado pela bomba atômica na luz do dia.” Uma cidade que, pelo material de construção, o betão armado, era extremamente suscetível aos danos por fogo.

A detonação da bomba com poder equivalente a 13 quilotons de TNT matou instantaneamente um número estimado de 70.000 pessoas. Até o final de 1945 morreram mais 90 mil pelos efeitos da radiação e necrose. E ainda 10 mil a partir desta data, incluindo nascituros e crianças com deformações, as “cegas inexatas” (Vinícius de Moraes).  

Além de massacre, quais outros nomes cabíveis ao planejamento da destruição em massa da população humana praticado pelos EUA? Genocídio e Holocausto, sem sombra de dúvida. Os nazistas foram julgados em Nuremberg, entre novembro de 1945 e outubro de 1946, por este crime de lesa-humanidade. Atente-se que o Tribunal foi instituído por acordo entre EUA, URRS, Inglaterra e França no dia 8 de agosto de 1945, dois dias após a destruição de Hiroshima e um antes de Nagasaki.

Nos Estados Unidos, prevalece a opinião de que as destruições de Hiroshima e de Nagasaki obrigaram o Japão ao rendimento incondicional, ao quebrar o absoluto controle militar do país e fortalecer oposição civil interna, poupando hipoteticamente as mortes de militares americanos decorrentes de uma invasão terrestre daquele país.  O êxito soviético na Manchuria permite, contudo, colocar em dúvida esta hipótese transformada em opinião pública.

O conjunto dos argumentos contrários ao uso de armas atômicas (assim como as químicas) do ponto de vista militar firmado a partir de então merece ser enfatizado ainda à luz de uma última consideração: o poder destrutivo da bomba poderia ser demonstrado sem causar mortes, como disse, entre outros, o físico nuclear americano Edward Teller.

O poder imperial dos EUA, assentado no monopólio nuclear, criou para si uma anistia tácita diante dos crimes de Hiroshima e Nagasaki. Esta posição poderia ter sido questionada pela URSS quando da conquista da paridade atômica com os EUA. Contudo a anistia aos crimes de guerra, de lesa-humanidade, dos EUA foi sancionada pela estratégia de coexistência pacífica da URSS. Décadas se passaram desde então, mas até o julgamento público dos EUA ainda dobrarão, em Hiroshima, os sinos no Parque Memorial da Paz.
 
 
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Enviado por Encontraponto em 09/08/2014
Alterado em 09/08/2014
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