Encontraponto

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O sertão está em nós
(homenagem a Eduardo Coutinho)


A vida é quente-frio, diz um dos camponeses paraibanos entrevistados por Eduardo Coutinho. Ele sorri e fala sério. Joga o jogo do depoente-ator. Explica isso, pede o diretor. O personagem-ator esclarece: a vida é agitada e calma.
 
Assim é a vida de todos os demais personagens de O fim e o princípio (2005). Entre certezas e incertezas, refletem em torno da pergunta subjacente: qual é o sentido do viver? Jesus deu o tempo certo para cada um, diz uma velha camponesa. Outro velho comenta: o jumento vive 30 anos, o cão 14. O homem ficou com o resto. Vale a pena? Como ele, todos os demais, a rezadeira desdentada, a aposentada rural que gosta de cachaça e fumo, o poeta a louvar a mulher, o misantropo que reflete sobre o mundo babélico do erro e do conflito, o surdo que ouve palavras escritas ao pronunciá-las, o que tem coisas mas não faz delas precisão do viver, todos falam da labuta que consumiu as suas vidas sob o sol.
 
Nós os vemos tão próximos, quase podemos tocar a textura pergaminhosa de sua pele e os fios quebradiços dos cabelos. Ao nos aproximarmos deles com a câmera sob a direção de Eduardo Coutinho sentimos na sua respiração o alento da vida apesar do sofrimento, da solidão, do sonho guardado. Em tudo há um consolo, às vezes tão pequeno como a sombra protetora de um juazeiro. A reza é uma poesia, diz o misantropo na antítese de seu ser avesso. Maior e central é o amor acolhido na casa, abrigo. O cineasta nos conduz ao seu interior, à penumbra onde a gente se pode aquietar, ter a pausa e o alívio, a reflexão e o sentimento, o desejo do outro e a comunicação. Assim, de casa em casa, da sombra por oposição à luz solar, o filme se constitui ao desvendar a microcosmovisão da população pobre brasileira. O sertão visto na localidade de São José do Rio do Peixe é o vasto serão roseano que nos constitui, realidade e sonho.
 
Para o sábio camponês que sorri falando sério, as coisas deste mundo são imposições. Tal como para São Tomé, é necessário ter olhos de ver e mãos de tocar. Desde pequeno, certamente: pois quando chegou a alcançar as primeiras letras foi subtraído para o roçado, a única realidade concreta de sua vida. Ele conta apenas o que sabe assim, não o que sabe de outra forma, guardado segredo. Então, numa dialética sertaneja a buscar um conceito geral, pergunta ao cineasta o que é a sabedoria. Assim: penso que sei. Será que sei?
 
A última cena do filme O fim e o princípio – as entranhas do sertão apresentadas por Rose, professora e agente pastoral da localidade escolhida por Eduardo Coutinho – é uma mesa vazia de gente, com garrafas e copos despejados. Nosso olhar fica preso a este vazio. É sempre bom lembrar, como diz Gilberto Gil que um copo vazio está cheio de ar... e ocupa o lugar da dor, a metade da verdade. 


 
Encontraponto
Enviado por Encontraponto em 23/02/2014
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