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Carta aos jovens ativistas a respeito da importância (e da necessidade) de escrever
 
 

Surpreendem-se (talvez fosse melhor dizer indignam-se) sempre ao constatar o reduzido número daqueles que efetivamente escrevem. Pior, as comunicações quase verbais, semelhantes aos antigos garranchos que ninguém fora do círculo de amizades compreende, prestam-se de legendas a uma profusão de imagens cada vez maior, uma nuvem virtual que acabará por desorganizar a memória e impedir a reflexão. Assim pensam os que deixaram de perceber os sinais das mudanças em curso e cuidam sempre de fechar as janelas para que o vento e a chuva não atinjam seus pertences.

Sinto-me de modo diverso. Entendo os jovens que se comunicam por meio de imagens enviados dos seus celulares. A meu ver, é a linguagem do testemunho de que algo importante (para eles) saiu do esquadro e merece o nome de “novo”. Apesar desse reconhecimento, gostaria, nesta carta, de chamar a atenção sobre a importância (e a necessidade) de escrever.

Não tenho a pretensão da verdade: sei tratar-se de uma questão a ser resolvida na prática social, muito além da pessoa que sou nas circunstâncias de meus afetos, do trabalho e das atividades.  Basta dizer, em defesa de meu ponto de vista, que aprendi gradativamente a importância (e a necessidade) de desvendar o mundo por meio da escrita.

Recentemente li as cartas e diários de adolescentes que viveram a Segunda Guerra Mundial, uma obra tocante que convida as gerações do pós-guerra a partilhar a experiência radical expressa naquelas vivências escritas. Aliás, a editora Objetiva nos brinda a oportunidade de acessar o capítulo inicial do livro Éramos jovens na guerra, organizado por Sarah Wallis e Svetlana Palmer. Duvido que alguém continue a ter o mesmo sentimento a respeito do significado de crescer durante a guerra após concluir a leitura desta obra.

Sim, a indicação de Éramos jovens na guerra bastaria para justificar a importância (e a necessidade) de escrever. Mas os livros não tem endereço certo; o leitor e a leitora são desconhecidos a quem o autor dirige a sua palavra sem ter noção de como, quando e onde irá alcançá-los. Em certos casos, os livros remetem-se uns aos outros e, assim, os autores estabelecem relações entre si, numa teia de referências para a agradável surpresa do leitor, às vezes muito tempo depois que “as águas negras baixaram” (Brecht). A narrativa dos autores está preservada na integridade de suas palavras, intocadas pela corrosão dos anos, nos livros.

A propósito da curta eternidade das obras escritas, adquiri na Estante Virtual o quinto volume das Memórias (Liúidi, gódi, jízn: Pessoas, anos, a vida) de Ilya Ehernburg, relativo a sua atuação como articulista do jornal “A Estrela Vermelha” na época da guerra. O volume foi traduzido e publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1966. Na página 159, quase no final da narrativa da catástrofe mundial, o escritor dedica-se a escrever sobre uma jovem que ele nunca encontrou. Pode fazer isso graças ao diário de Ina Konstantinova que a mãe, Vera Vassileyevna Konstantinova, professora de Kashin, havia deixado em suas mãos. O escritor dedicou 11 páginas para descrever a breve e intensa existência de Ina, morta pelos nazistas na noite de 4 de março de 1944, “na floresta coberta de neve, sob as estrelas”. Ainda não completara 20 anos. O diário dá conta da evolução emocional, das esperanças e medos dela. Ehrenburg destaca a denuncia das perseguições da era estalinista que ela percebeu por meio de tragédia que se abateu sobre as famílias de seus amigos de juventude. 

O escritor observa a publicação do diário na União Soviética após a Guerra com a restrição de não ter podido “falar do lado pior da vida, embora fosse isso que demonstrava a sua lealdade, a sua coragem moral”. Então resolveu dar o diário de Ina para Elsa Triolet, que o publicou em versão integral na língua francesa. Enquanto eu lia, pensava “mas eu também sei quem é Ina”. Depois lembrei-me: trechos do diário dela foram transcritos por Sarah Wallis e Svetlana Palmer para Éramos jovens na guerra. Mas foram as Memórias de Ehrenburg que me deram a conhecer mais profundamente Ina Konstantinova. Pude também entender a razão pela qual o escritor incluiu a história de Ina num livro sobre a sua própria vida.

E assim concluo esta carta a respeito da importância (e a necessidade) de escrever. Cabe dizer, porém, umas poucas palavras a mais.

Cada época tem sua forma de expressão, particularizando-se nas subculturas em que se estrutura. Não há, nos dias de hoje, como desconhecer na linguagem visual e audiovisual, seja pela beleza, seja pela denúncia, o compartilhamento da presença por detrás de um registro. Esta é a prática social dos tempos atuais entre os jovens.  É uma forma de sentimento e de mudança do mundo. Contudo, novamente em defesa da importância (e da necessidade) da escrita, remeto o leitor ao vídeo Estação Progresso: PAC Manguinhos. Boa visualização e leitura!
 

 
Encontraponto
Enviado por Encontraponto em 12/11/2013
Alterado em 12/11/2013
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