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COSTURANDO A VIDA: UMA EXPOSIÇÃO DE ANDRÉ LAINO NA UERJ

A Exposição "Costurando a vida", de André Laino com a participação da fotógrafa Mariza Almeida começou no dia 04/09 e termina no próximo dia 04/10. Estive lá no Centro Cultural da UERJ na segunda-feira passada e a exposição me impressionou. 

 
O contraste entre as fotos de Mariza e os vídeos produzidos por André chama atenção. Nas fotos, os operários expressam o orgulho de serem vistos por outros, saem do anonimato, assumem sua posição de sujeitos; nos vídeos, ao contrário, estão assujeitados, operam máquinas, não existem para a câmera. 
 
André e Mariza entraram numa fábrica de confecções, fotografaram e também filmaram diversas cenas do processo de trabalho, algo inédito no Brasil como afirma André em breve vídeo de divulgação disponível no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=jasd4SO51qU
 
Na verdade conseguiram romper, nesta experiência, o segredo comercial que cerca o trabalho fabril ao longo da história do capitalismo.
 
Nos vídeos estão registrados momentos importantes no processo de trabalho submetido ao capital, a exemplo de uma costureira se vê na obrigação de refazer todo o trabalho e de um operário a cortar o molde com elevadíssimo risco para a mão. A repetição dos atos deixa patente que os operários constituem o moderno Sísifo, obrigados a carregar uma gigantesca pedra não montanha acima, como na mitologia grega, mas no nível do chão da fábrica, consumindo-se no tempo da jornada de trabalho sempre com o mesmo padrão de movimentos.
 
É importante saber também que em Nova Friburgo há pouco mais de 2.000 operário(a)s sindicalizado(a)s em uma categoria estimada em 18.000 e que a população trabalhadora encontra-se submetida politicamente ao capital devido ao caráter excepcional deste ramo no município de Nova Friburgo.
 
Li o texto "Costurando a vida", distribuído na exposição. Completa os registros (objetos, fotos, vídeos) com uma interpretação bem situada que aqui anexo para leitura dos interessados.
 
Chamo atenção para o último parágrafo:
 
Abandonar a condição de costureira, tornar-se faccionista transitória e chegar à confeccionista: é a trajetória sonhada. Mas esse percurso é para poucas, pois a passagem de informal para formal é insegura e instável. Tais recusas de identidade profissional e incertezas do setor de confecção reforçam a dificuldade do Sindicato da categoria em ampliar seus quadros, ao mesmo tempo em que não mantém as costureiras nas confecções.
 
Parece-me que a recusa da identidade profissional por parte das costureiras e o sonho de se tornarem confeccionistas é justa. Afinal não se deve aceitar a exploração e a degradação do trabalho. Contudo, na medida em que este sonho é limitado para algumas poucas, a condição explorada, apesar da recusa, passa a ser o ponto de partida da luta coletiva que o sindicato dos trabalhadores precisa impulsionar.
 
Vale a pena ver a Exposição na Galeria Gustavo Schnoor do Centro Cultural da UERJ, (campus Maracanã) de segunda à sexta, das 9 às 20 horas. 
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Enviado por Encontraponto em 29/09/2013
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