Encontraponto

Textos

DESLIGAR O CELULAR, IPHONE, TABLET, ETC.?
 
Em homenagem à greve dos professores
da rede pública do Rio de Janeiro
 

A professora entra na sala pouco antes da aula começar. A turma é grande, a maioria desinteressada. Naquele momento (conta mentalmente) estão presentes 27 alunos...não 28, a Clarice acaba de entrar. Alguns estão sozinhos, outros em grupo. Sozinhos? Em grupo? Estão, isso sim, conectados, passando o tempo longe dali. Um deles, Francisco (um bom aluno) chama o colega do lado (Ricardo ou João André, aquele com baixa frequência mas muita pretensão quando questionado) para ler algo no tablet. Passados nove minutos, faltando um para recolher a chamada, uma leva de jovens entra ruidosamente na sala, arrasta cadeiras, cumprimenta-se e, quase empurrando-se, disputa as carteiras no canto extremo da sala. Ninguém ocupa a fila do “gargarejo”. Neste dia, porém, ela sente-se verdadeiramente desafiada. Não vai sentir-se novamente isolada, em crise de identidade com sua missão, na busca (sem sucesso) de convencê-los a participar na aula. Lembra-se da piada do camarada que usa a máquina do tempo de H G Wells, ajustada para ser transferido ao século XXI e quase enlouquece ao circular pelas ruas de uma cidade média, sentindo-se um “marciano”...até entrar numa escola! Não, não mais. Ela tinha lido Uma escola sem receita, de Rosiska Darcy de Oliveira. Pensou e conversou muito a respeito. Depois planejou.

Primeiro foi engraçado ler que a receita do “miojo” na prova do Enem pôs em questão a escola, a pedagogia, o sentido de ensinar e aprender. Miojo é “macarrão nojo”, uma gororoba adorada apenas por adolescentes. Mas na prova, foi um teste para saber se a correção era para valer. Era. Mesmo assim, prova como aquela, realmente não avaliava aprendizagem, como de resto a maioria das provas não faz isso. Contudo a pergunta da articulista “Ainda é preciso aprender?” não lhe pareceu uma verdadeira pergunta porque estava relacionada ao espaço virtual em que os alunos atualmente “navegam”, ausentando-se das aulas que os chateiam com a imensa massa de conteúdos que precisam aprender (para eles, copiar). Ficou mais em dúvida ainda com a afirmação de que a virtualidade dispensa o trabalho da memória. Isso porque (supunha pela experiência) no trabalho solicitado pelos professores para avaliar a aprendizagem tudo dependeria da habilidade de compor um texto usando as teclas e <control-c> e <control-v>. Copiar e colar.

Então conversou com amigos e amigas da profissão e ainda com sobrinhos adolescentes.  Um amigo lhe disse que as empresas de consultoria produzem relatórios de impacto ambiental com o uso sistemático do método <c>e<v>o tempo todo, pois sabem que o RIMA é “para constar”, a obra está praticamente aprovada caso não exista ninguém atento... do lado de cá (organizações de trabalhadores, de moradores, ambientalistas, Ministério Público, IBAMA).

A impressão de quem lê o artigo, disse uma amiga que o leu, é a de que os professores dispõem do conhecimento, os alunos da informação. Mas é isso mesmo? O conhecimento docente é sistematizado, geralmente manualístico. Isto é conhecimento, se entendemos por esta palavra a descoberta de algo novo? Poucos professores tem tempo para pesquisar em obras fundamentais e críticas de modo a elaborar uma aula que conduza os alunos a aprender como se construiu o conhecimento transmitido, em boa medida porque precisam correr atrás das jornadas em escolas públicas e particulares para compor seu orçamento mensal.

Outra argumentou que uma “informação” como aquela registrada em vídeo durante uma manifestação diante do palácio de governo no final de junho, a de um provocador que atirou uma pedra contra os policiais detrás dos manifestantes, desencadeando a repressão policial, adquiria o sentido de um conhecimento no contexto do protesto de rua. Porque, afinal, não pode haver informação sem conhecimento.

Pior é supor, acrescentou o amigo de longa data nessa conversa a três numa noite num boteco, serem os alunos incapazes de abstração, como se sofressem a limitação do pensamento concreto, tivessem uma mente operando com códigos restritos à experiência imediata. Não é o que pensam os gerentes e capatazes dos trabalhadores sem escolarização? Aliás, os analfabetos, por não terem a cabeça “formatada” por anos de escolarização, quer dizer, por não pensarem pela cabeça dos outros (os autores dos livros), se veem obrigados a construir um conhecimento baseado na experiência trocada e informada pelos amigos, familiares e colegas de trabalho, até mesmo da “mídia”.

Os sobrinhos reagiram ao artigo em tom de revolta. Mas quem é ela para dizer que os “tempos moldados e irrigados pela tecnologia” podem conduzir os jovens a uma “forma velada de antissociedade”? Ela concordou com eles: o ensino atual, centrado na transmissão de conteúdo sem considerar a experiência dos alunos, o contexto em que vivem, as questões que os mobilizam, presentes, aliás, no mundo virtual acessado por eles cotidianamente, esse ensino não pode e nem deve ser contraposto à “aprendizagem virtual centrada na informação”.

O final do artigo traz a proposta de que a escola tem de superar essas limitações simplesmente porque está falida. Precisa tornar-se a metadisciplina que ensina professores e alunos “o aprender a aprender”. Não diz como. Não tem receita pronta, conclui Rosiska de Oliveira.

Quem encontrou o caminho para sair do impasse foi a Roseli. Falou do sistema Dojo. Um sistema de aprender por meio de questões a solucionar em rede de aprendizagem. Uma adaptação do PBL aos novos tempos. As empresas tem interesse nesse novo modo de aprender pelos ganhos de produtividade implicados. Claro, irão buscar o “foco”, o conhecimento capaz de “agregar valor”, ou seja, para aumentar a lucratividade do investimento.

Enquanto relembra mentalmente o esforço para chegar à aula de hoje, a professora aguarda a turma perceber o silêncio em que ela se encontra. Logo um percebeu a atitude dela, cutucou outro, alguém fez “psiu” , o murmúrio acaba e esperam a fala dela.

 
"Muito bem pessoal: a aula de hoje será dedicada à rede de atenção à saúde das pessoas com diabetes. Vamos fazer uma pesquisa sobre este assunto ou tema. Pensei em três questões relacionadas, as duas primeiras, aos conceitos de rede e de cuidado, e a última a saber se de fato existe aqui na nossa cidade uma rede desse tipo. Vocês vão se organizar para responder estas perguntas em oito grupos de cinco alunos, aleatoriamente, porque quero que vocês se conheçam melhor e tenham a oportunidade de ouvir opiniões diferentes. A pesquisa será feita na internet nos sites que vou indicar. Se o celular é muito limitado, então o agrupamento vai incluir também a tecnologia mais avançada. Depois da pesquisa voltamos a nos reunir em plenária (gostaram da palavra, garotada?) para ver os resultados da pesquisa. Atenção: guardem bem os números. Vamos lá: você, Marina, é o número um, João Normano é o dois, Cida é o três..."

Essa história (prefiro estória, como se dizia antes da reforma ortográfica) não aconteceu. Ou ainda não. Talvez já, apenas eu desconheça. De qualquer modo, cabe a você leitor, leitora, dar os passos adiante.
Encontraponto
Enviado por Encontraponto em 28/08/2013
Alterado em 28/08/2013
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