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ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA NOVA ORDEM NACIONAL

Não pude acessar a saída do Metrô. Seguranças da empresa orientavam o público a buscar outro acesso. Perguntei a um deles: O que está acontecendo? É uma manifestação. Por causa de quê? O barulho ensurdecedor do helicóptero sobrevoando a área da Cinelândia em baixa altitude não me permitiu entendê-lo. Não ouvi direito. Ele aproximou-se e quando disse Eles estão querendo negativar o aumento da tarifa. São mais de três mil percebi uma sutil cumplicidade.

Soprava um vento forte, pedaços de papel e plásticos eram arrastados pela Avenida Rio Branco, vazia. Constatei serem 18:55 horas. Soldados da Polícia de Choque estavam posicionados na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Evaristo da Veiga, defronte ao Theatro Municipal. O helicóptero se deslocou na direção da Nilo Peçanha. Mais policiais militares, repórteres, jovens, todos, como eu, iam, apressadamente agora, ao encontro da multidão avistada de longe pelas luzes e pelo som abafado de alto-falantes entre o paredão dos edifícios. Três jovens passaram por mim, um dos quais trazia uma máscara. Estão preparados para o combate, pensei, ao vê-los com coturnos e casacos. De repente deparei-me com a multidão, centenas de milhares de jovens, bandeiras do PSTU agitadas em torno do carro de som, todos repetindo o refrão “Abaixo Cabral fascista!” Palavras de ordem escritas em faixas e cartazes improvisados em folhas de papel cartolina seguradas pelos jovens apontavam a heterogeneidade da passeata. Um cartaz chamou a minha atenção: Se você não está lutando então é parte do problema! Logo ouvi a conclamação vinda do carro de som, “Não fique aí parado, junte-se a nós”. Da calçada onde me encontrava, percebi mais jovens com as máscaras e até alguém agitando uma solitária bandeira do PT; alguns subiam em postes para fotografar; garotas de shorts pulavam e gritavam com raiva o novo refrão “Cabral fascista, vai tomar no...!” Uma catarse coletiva. Como eu tinha um compromisso fui-me dali com o sentimento de que a manifestação parecia “fora de esquadro”. Quer dizer, era contra o aumento da passagem, certo, mas isso não parecia ser o principal. O que estava em questão na revolta dos jovens de classe média? O fato das tarifas de ônibus serem impostas e, portanto, da falta de “diálogo” entre eles e o governo estadual? Lembrei-me de um protesto anterior contra o aumento do preço das barcas e que a liderança, professores do PSOL, tinha sido coagida pelo governo. A violência desencadeada nessa e nas outras manifestações faria parte dessa raiva incontida dos jovens?

No dia seguinte, ao ler as matérias sobre o protesto no jornal, deparo-me com o estranhamento de Ângela Paiva, socióloga da PUC-Rio porque apesar do aumento da passagem ser razão suficiente para o protesto, o movimento se recusa ao diálogo com o governo. Também não sabe a quem dirigir a crítica pela recusa ao diálogo. Afinal quem faz o protesto não é a parcela (da sociedade) mais penalizada com o aumento. (O Globo, 14/06/2013: “Sociólogo estranha rejeição ao diálogo”, reportagem de Chico Otavio, p.6) Insinuação de que há interesse político envolvido, eis o que aparece em outra matéria a respeito da repercussão do protesto. O jornal “Clarín” destaca que José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, teria ordenado uma investigação sobre os protestos. Provavelmente vão incriminar os militantes e os dirigentes dos partidos, penso. O protesto é político? Sim, raciocino. Então por que os jovens não procuram estabelecer o diálogo? Porque seu móvel não é apenas ou principalmente o aumento, mas a denúncia de uma situação subjacente. Como entender isso? Como diz a matéria com Ângela Paiva, o mal-estar é da academia, na medida em que o protesto não consegue ser explicado pela teoria estabelecida. Ou seja, protesto tem de se enquadrar na ordem: “quem protesta quer conversar”. A ciência social hegemônica supõe o consenso. 

Continuo a folhear o jornal. Na página 8 consta a manchete “Chefs farão movimento anti-violência”, um movimento contra os arrastões nos restaurantes de São Paulo. Logo, pela restauração da ordem. Viro a folha: “Ruralistas vão usar tratores em ‘paralisação parcial’ de rodovias”. Em resposta à luta dos Terena em Mato Grosso do Sul, querem que a demarcação das terras indígenas passe pelo Congresso Nacional, onde sabem dispor de maioria em defesa da propriedade privada.  Estudantes, chefs, ruralistas: alguma coisa está acontecendo, mas você não sabe o que é, diz o verso de uma música de Bob Dylan. 

Então lembro as máscaras usadas pelos manifestantes. Para a imprensa, são instrumentos para proteger o rosto das bombas de gás lacrimogêneo. Porém são máscaras singulares, idênticas aquelas usadas no filme “V de Vingança”, de James McTeigue, versão cinematográfica para o quadrinho de Alan Moore que se passa numa sociedade distópica, dominada pela mentira administrada por uma ditadura capitalista. Em outros termos, as máscaras de “V de Vingança” usadas pelos manifestantes na Avenida Rio Branco podem ser metáforas de faixas e de cartazes, máscaras-denúncias. Seu uso pode expressar o destemor de dizer que o sistema político vigente já não pode controlar o sentimento coletivo de mal estar difuso na sociedade. A passeata do Rio de Janeiro, eco daquelas ocorridas antes em São Paulo e em outros lugares, como Porto Alegre, Maceió e Natal, não seria a alquimia política, a catálise de um movimento cujas vozes apenas agora passaram a ser ouvidas [http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/veja-relatos-de-participantes-de-protesto-em-sp.html]? 

Vale dizer então parafrasear a música do Caetano: Alguma coisa está fora da nova ordem nacional.  

Encontraponto
Enviado por Encontraponto em 15/06/2013
Alterado em 16/06/2013
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